
Houve uma época em que viajar pelo norte de Mato Grosso não significava apenas sair de uma cidade e chegar a outra.
Significava enfrentar o caminho.
As estradas eram ruins, os buracos faziam parte da viagem e, em algumas regiões, o asfalto simplesmente acabava.
Dali para frente era terra.
Terra, poeira, distância e uma estrada que parecia avisar:
— Daqui em diante, cada um segue por sua conta e risco.
Mas havia trabalho a fazer.
E quem vivia como representante comercial naquele tempo não podia escolher apenas os caminhos fáceis. Cliente não aparecia na porta da gente. Era preciso procurar.
Às vezes muito longe.
Eu costumava dizer que a gente seguia conforme a carruagem andava.
E ela andava.
Mesmo quando a estrada quase não deixava.
Numa dessas viagens, ainda faltava explorar comercialmente um trecho do extremo norte de Mato Grosso, seguindo em direção ao Pará. A última cidade daquele roteiro seria Guarantã do Norte.
O problema estava justamente entre a vontade de chegar e o destino.
A estrada de terra encontrava-se em péssimas condições.
Olhei para aquilo e resolvi poupar meu carro.
Dessa vez, iria de ônibus.
Parti à noite de um pequeno vilarejo próximo de onde terminava o asfalto.
O ônibus, pelo menos em teoria, era apropriado para aquele tipo de estrada.
Na prática, era outro sobrevivente.
Sacolejava para todo lado, enfrentando buracos, valetas e os atropelos de uma rodovia que parecia ter sido esquecida pelo resto do mundo.
O próprio assoalho denunciava os muitos quilômetros de batalha.
Havia buracos nele.
E por aqueles buracos entrava a poeira da estrada.
Não era preciso abrir a janela para saber que estávamos viajando numa estrada de terra.
A estrada entrava no ônibus junto com a gente.
E assim fomos noite adentro.
Não havia paisagem para admirar.
A escuridão engolia tudo.
De vez em quando algum solavanco acordava quem tentava cochilar. O ônibus rangia, pulava, balançava e continuava avançando naquele pedaço de Mato Grosso onde chegar já era, por si só, uma pequena vitória.
Foram aproximadamente quatro horas daquela aventura.
Quando finalmente chegamos a Guarantã do Norte, devia ser por volta das duas horas da madrugada.
Desci do ônibus e encontrei uma cidade praticamente escura.
Naquele tempo, por aquelas bandas, até energia elétrica era coisa que não se podia considerar abundante.
Pouca iluminação.
Pouco movimento.
Uma madrugada silenciosa no extremo norte de Mato Grosso.
Depois de horas sendo sacudido dentro daquele ônibus, eu queria apenas encontrar uma cama.
Achei uma pousada.
Bem simples.
Naquele momento poderia ter uma estrela ou nenhuma.
Para mim, bastava ter colchão.
Deitei sabendo que algumas horas depois começaria outra parte daquela aventura.
Porque eu não tinha ido até ali para conhecer a cidade.
Eu tinha ido trabalhar.
Na manhã seguinte, saí a pé.
E havia outro problema no caminho.
As queimadas castigavam a região.
A fumaça tomava conta de tudo e, em determinados pontos, mal se enxergavam direito as ruas.
Era uma mistura de fumaça, poeira e calor.
E lá fui eu.
Depois de toda aquela viagem havia, afinal, um único cliente em potencial que justificava minha ida até Guarantã do Norte.
Um.
Eu havia enfrentado estrada ruim, deixado o carro para trás, viajado quatro horas num ônibus furado por onde entrava poeira, chegado às duas da madrugada, dormido numa pousada simples e caminhado por uma cidade coberta pela fumaça das queimadas…
para visitar aquele cliente.
Finalmente cheguei.
Fui recebido.
Apresentei meu trabalho.
E o interesse do homem foi tão pequeno que parecia que eu tinha atravessado a rua para conversar com ele.
Não centenas de quilômetros.
Saí dali com aquela sensação que todo vendedor conhece.
A de pensar:
— Será que precisava mesmo ter vindo até aqui?
Por alguns momentos, confesso que me arrependi da viagem.
Todo aquele esforço para praticamente nada.
Mas havia uma coisa que a estrada já havia começado a me ensinar:
nem sempre a recompensa está no lugar onde fomos procurá-la.
Era hora de voltar.
E no caminho de volta passei por Peixoto de Azevedo.
Outra realidade.
Cidade marcada pelo garimpo de ouro, como tantas que surgiam e cresciam naquele Mato Grosso onde parecia haver sempre alguma coisa acontecendo depois da próxima curva.
Garimpeiros chegavam.
Comércio aparecia.
Dinheiro circulava.
Gente vinha de todos os cantos atrás da esperança de encontrar no chão aquilo que pudesse mudar a vida.
E foi justamente ali, onde eu talvez esperasse menos, que a minha viagem começou a fazer sentido.
Apareceram novas visitas.
Novos contatos.
Novas oportunidades.
Portas começaram a se abrir.
Aquela viagem que, poucas horas antes, parecia ter sido um esforço quase inútil começou a valer a pena.
E talvez estivesse ali uma das grandes lições que aprendi durante meus anos como representante comercial.
Na estrada, nem sempre a oportunidade estava onde o mapa dizia que ela deveria estar.
Às vezes viajávamos centenas de quilômetros atrás de uma porta.
Ela não se abria.
Dávamos meia-volta.
E encontrávamos outra aberta no caminho.
Era preciso continuar.
Sempre.
Havia a necessidade de trabalhar, claro.
As contas não esperavam a estrada melhorar.
Mas existia também algo difícil de explicar para quem nunca viveu daquela maneira.
Havia o gosto pela aventura.
A curiosidade de descobrir uma cidade nova.
A vontade de saber quem estaria atrás da próxima porta.
A expectativa de encontrar um cliente onde ninguém imaginava.
E talvez até aquela pergunta silenciosa que acompanhava cada viagem:
— O que será que existe depois daquela curva?
Foi essa vontade que muitas vezes não me deixou desistir.
Eu poderia ter olhado para aquela estrada de terra e voltado.
Poderia ter desistido diante daquele ônibus.
Poderia ter considerado a viagem perdida depois da recepção indiferente daquele único cliente em Guarantã do Norte.
Mas continuei.
E foi continuando que encontrei outras oportunidades em Peixoto de Azevedo.
Foi continuando que conheci cidades, pessoas e lugares que jamais teria conhecido se esperasse pelas condições perfeitas.
Naquele Brasil, as condições perfeitas quase nunca chegavam.
A gente é que chegava.
Com poeira na roupa.
Cansaço no corpo.
Uma pasta de trabalho na mão.
E esperança suficiente para bater em mais uma porta.
Assim foram muitos anos da minha vida como representante comercial.
Rodando por um Brasil que ainda estava abrindo caminhos.
Um Brasil onde havia cidades crescendo no meio da fumaça, garimpos transformando regiões e estradas que pareciam terminar no horizonte.
Mas para nós havia uma regra muito simples:
a estrada podia terminar.
O asfalto podia terminar.
A disposição para seguir em frente, não.
Porque naquele tempo, no norte de Mato Grosso…
o asfalto terminava muito antes do trabalho.
Coisas da estrada.
© WDWilson•blog-SandraStyle
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